Aula de carioquice, violada e cantoria em ‘4 Cabeça’
Quatro caras talentosos demais, que interpretam, compõem e tocam violão super bem e, para melhorar as coisas, encontraram um jeito peculiar de dar o seu recado. Estamos falando da banda 4 Cabeça. Juntos, Luis Carlinhos, Gabriel Moura, Maurício Baia e Rogê inventaram uma fórmula de cantar, mostrando as canções da maneira mais crua possível, assim como nascem nos encontros informais do quarteto. As letras são espertas e as melodias, rodam em looping na nossa mente. As onze faixas deste 4 Cabeça (edição simples e charmosa da Bolacha Discos, com design descolado da Tangerina) tem um cheiro de novo, sem arquivar os fundamentos do canto coral. Os quatro, com pegada roqueira, sabem combinar vozes e instrumentos. Cantam em uníssono e, em determinados momentos, dividem as frases. Fica bonito porque cada timbre diz a que veio. Quem nunca os (ou)viu ao vivo, tenta adivinhar quem está cantando qual parte. E as vozes vêm de todos os lados, se deslocam mesmo. Quase podemos ver os músicos espalhados no palco.
Embarcamos totalmente na deles antes mesmo de chegar à metade da faixa inicial, “4 Cabeça”, parceria de Gabriel, Baia e Rogê. É uma espécie de meta-canção, que diz: “eles vêm fazendo nome/ eles vêm de boca em boca/ colocando palavra na língua do povo”. Violões e vozes convergem, fortalecendo a assinatura dos rapazes (”são quatro caboclos em volta da mesa/ quarto presas versando em prosa/ travando trovas/ lembrando lendas alucinadas”), numa interpretação exultante. A segunda música, “TV Cultura”, do baiano Baia e do carioca Gabriel, sobrinho do saxofonista Paulo Moura, usa a emissora paulistana para falar da vida cotidiana, sobre eventos que podem acontecer com qualquer um, como passar numa universidade, ter o pneu mais novo furado e sentir na pele a dureza do preconceito racial. “Tudo isso e muito mais/ na sua TV Cultura” ensina o refrão. No meio, espaço para a filosofia: “Quem sabe o que quer tá sempre à procura”.
A caligrafia do quarteto é tipicamente carioca. Músicas como “Quem canta” (Rogê, Gabriel e Baia) e “Carcaça” (Luis Carlinhos, Baia e Fuzuê, gravada originalmente no disco Rapa da panela, 2003, de Luis Carlinhos) são sambas-rock com mensagens otimistas e acordes que nos agitam por dentro. “Copacabana”, do Gabriel, é outro exemplo de carioquice elevada à décima potência. Passeia pela antropologia do ilustre bairro de passado glamouroso com humor e doses explícitas de realidade. Tudo soa divertido e leve, apesar de falar dos cheiradores de pó, das putas e dos mendigos com a mesma empolgação com que nota a presença dos turistas, dos cachorros das madames e do artista da televisão que mora na vizinhança. É uma crítica social incrível, que atinge o ápice ao ironizar a demografia exagerada do bairro zona sul (”são vinte em cada apartamento/ e vinte apartamentos por andar”). Tudo cantado com muita malandragem, é claro!
“Lembrei”, parceria de Baia e Gabriel, evoca o romantismo de Roberto Carlos na pegada, trazendo versos cheios de antíteses inteligentes. “O poeta” é um barato, com os quatro cantando juntos o tempo todo, vocais percussivos e a linha poética característica da banda. “Fulano, beltrano e sicrano”, outra de Baia e Gabriel, lembra o trabalho de Ney Matogrosso com Pedro Luís e A Parede, Vagabundo, de 2004. No entanto, sem comparações que busquem classificar o grupo, já que a intenção aqui é apenas situar o leitor. Em seguida, “Violeiro” (Baia, Gabriel e Luis Carlinhos) aponta para os músicos amadores do interior do país, crescidos nas rodas de violão de regiões como Minas Gerais e São Paulo. Ainda na seara geográfica, a banda emenda com “Soy América” (Gabriel, Seu Jorge e Sérgio Campanelli) e “Brasis” (Gabriel e Jorge de novo mais Jovi Joviniano). A primeira lista as nacionalidades da América e aproxima os povos e a segunda é uma saborosa marchinha de carnaval entoada a capella. Aliás, “Brasis” nomeia o disco do Gabriel Moura, de 2006, reprensado agora pela Som Livre com capa nova e faixa bônus. O álbum 4 Cabeça está entre os melhores e mais surpreendentes lançamentos do ano.
Veja fotos de um show que o quarteto fez no Zozô Bistrô: Geniais no disco, incríveis no palco
4 Cabeça (Bolacha Discos)
R$ 17, em média
Por Monica Ramalho



Eu já fui a alguns shows do quarteto e afirmo tudo isso que está escrito acima!
É realmente um grupo magnífico que trata a música como ela deve ser tratada!
Conheci por gostar muito do som do Mauricio Baia (ex Baia e Rockboys) e depois de ver as apresentações do 4 Cabeça vi que conseguiram fazer uma junção perfeita! Com a voz marcante de Gabriel Moura, as melodias únicas de Luis Carlinhos, o talento de Roge no violão e a extroversão e letras tão grandiosas do Baia!
Parabéns pelo CD e desejo muito sucesso, pois merecem!!!
PS: Façam mais shows!!!! rsrs
passando por aqui para parabenizar a Monica Ramalho pela ótima matéria e para avisar que o “4 Cabeça” estará em temporada de lançamento do CD durante as quintas feiras de Janeiro no Zozô, aos pés do Morro da Urca. Dia 14/01 tem o segundo show e o disco vai estar disponível pra venda!
abs e sucesso p todos nós!
Paulo Monte / Conteúdo / Bolacha Discos
Agora além dos shows e da MPB Fm dá pra ouvir essa pérola que é o 4 Cabeça no CD. Desde C/S/N/Y não aparece uma coisa tão boa.
Sucesso turma!
Sou do Recife; Maurício é meu sobrinho. Adoro ver/ouvir Maurício (Baia) e os seus companheiros da banda 4 Babeça. Gostaria que o Maurício me informasse quando o disco chega nas lojas de nossa cidade.
O que é que está faltando para esses meninos estourarem em todo o Brasil?
Galera, continuo escutando o disco com o mesmo prazer dos primeiros dias. A diferença é que agora eu canto junto com o quarteto rs. Vou no show deles amanhã. Tô muito animada! Beijos sonoros!