Aula de carioquice, violada e cantoria em ‘4 Cabeça’

22.12.2009. Resenhas

4cabeca_340Quatro caras talentosos demais, que interpretam, compõem e tocam violão super bem e, para melhorar as coisas, encontraram um jeito peculiar de dar o seu recado. Estamos falando da banda 4 Cabeça. Juntos, Luis Carlinhos, Gabriel Moura, Maurício Baia e Rogê inventaram uma fórmula de cantar, mostrando as canções da maneira mais crua possível, assim como nascem nos encontros informais do quarteto. As letras são espertas e as melodias, rodam em looping na nossa mente. As onze faixas deste 4 Cabeça (edição simples e charmosa da Bolacha Discos, com design descolado da Tangerina) tem um cheiro de novo, sem arquivar os fundamentos do canto coral. Os quatro, com pegada roqueira, sabem combinar vozes e instrumentos. Cantam em uníssono e, em determinados momentos, dividem as frases. Fica bonito porque cada timbre diz a que veio. Quem nunca os (ou)viu ao vivo, tenta adivinhar quem está cantando qual parte. E as vozes vêm de todos os lados, se deslocam mesmo. Quase podemos ver os músicos espalhados no palco.

Embarcamos totalmente na deles antes mesmo de chegar à metade da faixa inicial, “4 Cabeça”, parceria de Gabriel, Baia e Rogê. É uma espécie de meta-canção, que diz: “eles vêm fazendo nome/ eles vêm de boca em boca/ colocando palavra na língua do povo”. Violões e vozes convergem, fortalecendo a assinatura dos rapazes (”são quatro caboclos em volta da mesa/ quarto presas versando em prosa/ travando trovas/ lembrando lendas alucinadas”), numa interpretação exultante. A segunda música, “TV Cultura”, do baiano Baia e do carioca Gabriel, sobrinho do saxofonista Paulo Moura, usa a emissora paulistana para falar da vida cotidiana, sobre eventos que podem acontecer com qualquer um, como passar numa universidade, ter o pneu mais novo furado e sentir na pele a dureza do preconceito racial. “Tudo isso e muito mais/ na sua TV Cultura” ensina o refrão. No meio, espaço para a filosofia: “Quem sabe o que quer tá sempre à procura”.

A caligrafia do quarteto é tipicamente carioca. Músicas como “Quem canta” (Rogê, Gabriel e Baia) e “Carcaça” (Luis Carlinhos, Baia e Fuzuê, gravada originalmente no disco Rapa da panela, 2003, de Luis Carlinhos) são sambas-rock com mensagens otimistas e acordes que nos agitam por dentro. “Copacabana”, do Gabriel, é outro exemplo de carioquice elevada à décima potência. Passeia pela antropologia do ilustre bairro de passado glamouroso com humor e doses explícitas de realidade. Tudo soa divertido e leve, apesar de falar dos cheiradores de pó, das putas e dos mendigos com a mesma empolgação com que nota a presença dos turistas, dos cachorros das madames e do artista da televisão que mora na vizinhança. É uma crítica social incrível, que atinge o ápice ao ironizar a demografia exagerada do bairro zona sul (”são vinte em cada apartamento/ e vinte apartamentos por andar”). Tudo cantado com muita malandragem, é claro!

“Lembrei”, parceria de Baia e Gabriel, evoca o romantismo de Roberto Carlos na pegada, trazendo versos cheios de antíteses inteligentes. “O poeta” é um barato, com os quatro cantando juntos o tempo todo, vocais percussivos e a linha poética característica da banda. “Fulano, beltrano e sicrano”, outra de Baia e Gabriel, lembra o trabalho de Ney Matogrosso com Pedro Luís e A Parede, Vagabundo, de 2004. No entanto, sem comparações que busquem classificar o grupo, já que a intenção aqui é apenas situar o leitor. Em seguida, “Violeiro” (Baia, Gabriel e Luis Carlinhos) aponta para os músicos amadores do interior do país, crescidos nas rodas de violão de regiões como Minas Gerais e São Paulo. Ainda na seara geográfica, a banda emenda com “Soy América” (Gabriel, Seu Jorge e Sérgio Campanelli) e “Brasis” (Gabriel e Jorge de novo mais Jovi Joviniano). A primeira lista as nacionalidades da América e aproxima os povos e a segunda é uma saborosa marchinha de carnaval entoada a capella. Aliás, “Brasis” nomeia o disco do Gabriel Moura, de 2006, reprensado agora pela Som Livre com capa nova e faixa bônus. O álbum 4 Cabeça está entre os melhores e mais surpreendentes lançamentos do ano.

Veja fotos de um show que o quarteto fez no Zozô Bistrô: Geniais no disco, incríveis no palco

4 Cabeça (Bolacha Discos)
R$ 17, em média

Por Monica Ramalho

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